sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Moça da janela

Professeure

Ela foi a única mulher de sardas que fotografei até hoje. E como elas ficam bem nas fotos em preto-e-branco. Em especial se você utilizar filmes de alta sensibilidade, procurando atingir uma boa granulação. Eu aconselho a qualquer fotógrafo. Sair na rua à cata de alguma sardenta. Elas dão ótimos retratos, nus e amores. Voltou a sorrir, recolheu o caderno, a caneta e os dicionários, disse c’est fini e levantou-se para ir embora. Ela era muito pontual, tanto pra chegar, quanto pra se ir. Pelo menos, no começo. Segunda as duas então. Trocamos beijos e ela saiu pedalando na rua de paralelepípedos. Esperei ela sumir na esquina e vi sua sombra trepidante sumir atrás dela. Luiza possui o charme característico das pessoas que, sem deixarem de ser bonitas, possuem alguma evidente imperfeição no rosto. Um nariz maior, um ligeiro estrabismo, um queixo obtuso a la Noel Rosa. No entanto, mesmo olhando cuidadosamente para os seus retratos hoje, não consigo perceber qualquer desprimor que justifique esse charme. Seu nariz é caprichoso e escarpado de leve, terminando numa bolinha. O vinco nas bochechas é oblíquo e suave. A boca pequena, mas polpuda. Dois riscos pretos e bastante ciliados ocupam o lugar dos olhos. Semi cerrados eles olham o mundo com preguiça. Tudo isso sobre uma pele branca, branquinha, salpicada de sardas miúdas e emoldurada por cabelos pretos e longos. Naquele momento, ainda não sabíamos se os sorrisos, gentilezas e simpatias do outro eram pura expressão de uma personalidade prazenteira ou vacilo de uma química já incapaz de se conter. O cabelo sempre preso com presilhas, grampos, piranhas, elásticos, canetas, deixam nus o pescoço, o colo e a nuca da professora. Ela se irrita quando eu me distraio. Estala os dedos e me aponta as figuras do livro. Eu bem queria saber onde batem aqueles cabelos quando soltos. Porque estudar literatura não é fazer literatura, convenhamos. Esse mestrado em literatura, para um escritor, equivale ao emprego de uma loja de discos para um músico, animar buffets infantis para um ator ou fotografar casamentos, para mim. Brigamos aquele dia. Eu não sabia exatamente onde eu a ofendia, nem o tamanho das minhas ofensas. E era sempre a sério que fazíamos pedidos às estrelas e cílios caídos. Eu tinha a impressão de que aqueles olhos excessivamente ciliados satisfariam todos os meus desejos. Ela envergonhava-se diante da câmera. Virava a cara, metia o rosto entre os cotovelos, puxava os lençóis por cima da cabeça e fazia buuuu. Mas foi se acostumando com os instantâneos. Na cama ela me confessou que já quis ser acrobata, que fez teatro na adolescência, que pensou em juntar dinheiro trabalhando em cruzeiros e que chegou mesmo a quase embarcar para ser recepcionista em Dubai. Comprou violão, teve aulas, namorou o professor. Beijou meninas e não gostou. Trabalhou no xerox, foi caixa de videolocadora, vendeu cartões postais artesanais e teve bolsa na faculdade. Dizia que todos nós temos um olho doce e o outro louco. E queria me provar, cobrindo com uma das mãos ora uma ora outra metade das faces dos retratos que eu tenho espalhados pelas paredes do quarto. Um feirante doce, um feirante louco. Uma doce negra, uma negra louca. Uma menina, uma puta. Uma noiva, uma suicida. Um palhaço, um assassino. Um fotógrafo, um safado. E depois de muito me olhar fotografá-la e depois de muito comparar os seus retratos, disse que o meu olho louco era melhor fotógrafo que o outro. É claro que para mim tudo isso é uma grande bobagem. Não passa do resultado de uma intenção, uma busca, como aquele que lê horóscopos, consulta cartas, observa os pássaros e estende as mãos a uma cigana. Mas quando ela disse aquilo, eu quis examinar retrato por retrato. Eu queria ter um olho louco que fosse bom. Foi aí que percebi que ela se ria. Se sacudia de rir. Ria da minha cara. Ria da minha descrença crente. Ria da rasteira que passou em mim. Eu pulei em cima dela e lhe fiz cócegas com raiva. Eu queria machucá-la. Queria trepar olhando para o seu olho doce e dar-lhe tapas pela cara. Era de Peixes e pressentia desastres que nunca aconteciam. Desfilava pra mim de calcinha e cigarro e colocava sempre a mesma cassete velha pra tocar, músicas gravadas para mim por uma antiga namorada. E eu já estava enjoado de ouvir London, London passar para Amor de Índio. Juramos que éramos os únicos. Prometemos morar em São Paulo. Nossa casa teria uma biblioteca, quadros, fotografias, um laboratório, um estúdio, um cinema, um labrador, plantinhas e bibelôs dos diferentes países e cidades visitadas. Prometemos ficar juntos quando eu voltasse de Paris depois de um ano. Ela me olhava e os seus dois olhos, o louco e o doce, eram tristes.

Pipas

Versos

o eu que especula o outro

o choro que umedece a nuca

a fruta que descasca a boca

e a sombra que se faz no escuro


a tarde que adocica o céu

o medo que sumiu de mim

o contorno que não se decide

e o suicida que parou no ar


o menino que esqueceu o chapéu

o véu que desbotou nas mãos

a anel que ninguém mais achou

e a perna que não se quebrou


o anjo que caiu da escada

o profeta que nunca chega

e a abelha que faz cera

para sair de casa

Roda

(sugira um título)

todo dia devia ser copa do mundo

junto com o dia do seu aniversário

devia ser natal na semana seguinte

e dia após dia ainda ser sábado


devia ser dia de homenagens

ter tempestade de papel picado

deviam haver paradas cívicas

de mímicos mimetizando abraços


teriam que ser longos dias de verão

pontuados por uma lua cheia inchada

rabiscada de cores artificiais

no cair de uma noite em polvorosa


bem que podia acabar a luz no país todo

por um tempo faríamos sombras na parede

faríamos amor e jogos de palavra

e jantaríamos toda noite à luz de velas


e seriamos todos como os atores

flores-de-vento ao vento aventurosas

com uma alegria desarmada e harmoniosa

na fina flor da infanto-malandragem


e que bom se perdêssemos a hora

em uma perda de tempo sem precedentes

e não teríamos mais tempo para tudo

restando apenas o tempo que nos resta


e por passar tão perto assim da vida

assim tão próximo

todo santo dia nossa vida toda passaria

em nossos olhos