Ainda mais bonita sob e ao meio das castanhas cores do outono. Clara dizia isso com os olhos fixos na janela, um mosaico amarelado-ocre das folhas do ipê por onde a manhã de maio se recorta para alcançar o quarto e deitar monocromática sobre os cabelos, pele e lábios literários de Margarida. Disse como que ao vento, como se não possuísse juízo já há muito tempo, disse isso e só isso, como que lembrando a passagem de um livro lido e que não me sai ou que sempre volta nessas horas à cabeça. Até como se Margarida não estivesse lá, em seu primeiro plano, disse o que lhe convinha no código do vazio dos seus olhos loucos. O que você está lendo Margarida? Cortazar, e você, o que dizia, Clara? Perguntava se você quer tomar o café ou começar a preparar o almoço. Com um nó improvisado, mal atado entre seu sexo e sua dor, expressou-se com aparente serenidade como se fora mesmo aquilo que houvesse dito.
É certamente um defeito a incapacidade em dissimular sentimentos. Mas se não consigo guardá-los cá dentro ou abandoná-los ao espaço público do engano posso e tenho o direito de travesti-lo em insanidade fugaz que algumas manhãs ou um romance, de Virgínia Woolf ou Clarice, marcado pelas últimas páginas, legitimam.
Você às vezes parece doida, Clara. Falar ao dia como a uma moça por quem acaba de descobrir o amor. Margarida dizia isso com um biscoito fino de curiosidade e constrangimento nos lábios e com os olhos fixos no espelho d’água com que enchia o filtro de barro e por onde precipitava uma distorcida silhueta da amiga estacionada às suas costas. E pendiam mangues e mangues de argila dos olhos de Clara. Por onde as secas folhas de incêndio dos de Margarida se foram arranjar.
Margarida era prática antes de Clara. Simples como e com a disposição de um joão-de-barro a executar seu ninho. Elementar e incipiente com os seus sentimentos e também dos outros, com os quais fazia, não a propósito, resumos esquemáticos. Foi Clara quem lhe deu Cortazar para ler e quem teve a idéia de descosturar suas sépias bonecas de pano para recompô-las, braço cá perna lá, em uma curta colcha de retalhos. Foi também Clara a única capaz de lhe fazer apreciar o delicado sabor feminino e agridoce de uma última tarde de outono.
Depois do almoço leve abandonaram a cozinha pela apreciação áspera e cítrica de um milhar de cajus maduros. Margarida, com a indefesa típica dos que hesitam, viu-se, enfim, despetalada num bem-me-quer. Rasgaram os seus tricôs, fábricas de maternas mãos, e de meias, somente, dançaram abraçadas deslizando os pés pelos tacos da sala. Do melado de seus corpos borbotaram enxames de operárias selvagens que se entreferroaram com seus falos de dor e de veneno. E ainda sob os odores típicos das abelhas experimentaram a perda das vísceras e a conseqüente potencialidade de suas mortes. Toda paixão requer um suicídio ou um crime. Clara, enfim, levou-a aos tons pastéis daquele retardado crepúsculo e afundaram e desapareceram em meio a folhas mortas e frutas secas.




