terça-feira, 3 de março de 2009

Clara

Ainda mais bonita sob e ao meio das castanhas cores do outono. Clara dizia isso com os olhos fixos na janela, um mosaico amarelado-ocre das folhas do ipê por onde a manhã de maio se recorta para alcançar o quarto e deitar monocromática sobre os cabelos, pele e lábios literários de Margarida. Disse como que ao vento, como se não possuísse juízo já há muito tempo, disse isso e só isso, como que lembrando a passagem de um livro lido e que não me sai ou que sempre volta nessas horas à cabeça. Até como se Margarida não estivesse lá, em seu primeiro plano, disse o que lhe convinha no código do vazio dos seus olhos loucos. O que você está lendo Margarida? Cortazar, e você, o que dizia, Clara? Perguntava se você quer tomar o café ou começar a preparar o almoço. Com um nó improvisado, mal atado entre seu sexo e sua dor, expressou-se com aparente serenidade como se fora mesmo aquilo que houvesse dito.

É certamente um defeito a incapacidade em dissimular sentimentos. Mas se não consigo guardá-los cá dentro ou abandoná-los ao espaço público do engano posso e tenho o direito de travesti-lo em insanidade fugaz que algumas manhãs ou um romance, de Virgínia Woolf ou Clarice, marcado pelas últimas páginas, legitimam.

Você às vezes parece doida, Clara. Falar ao dia como a uma moça por quem acaba de descobrir o amor. Margarida dizia isso com um biscoito fino de curiosidade e constrangimento nos lábios e com os olhos fixos no espelho d’água com que enchia o filtro de barro e por onde precipitava uma distorcida silhueta da amiga estacionada às suas costas. E pendiam mangues e mangues de argila dos olhos de Clara. Por onde as secas folhas de incêndio dos de Margarida se foram arranjar.

Margarida era prática antes de Clara. Simples como e com a disposição de um joão-de-barro a executar seu ninho. Elementar e incipiente com os seus sentimentos e também dos outros, com os quais fazia, não a propósito, resumos esquemáticos. Foi Clara quem lhe deu Cortazar para ler e quem teve a idéia de descosturar suas sépias bonecas de pano para recompô-las, braço cá perna lá, em uma curta colcha de retalhos. Foi também Clara a única capaz de lhe fazer apreciar o delicado sabor feminino e agridoce de uma última tarde de outono.

Depois do almoço leve abandonaram a cozinha pela apreciação áspera e cítrica de um milhar de cajus maduros. Margarida, com a indefesa típica dos que hesitam, viu-se, enfim, despetalada num bem-me-quer. Rasgaram os seus tricôs, fábricas de maternas mãos, e de meias, somente, dançaram abraçadas deslizando os pés pelos tacos da sala. Do melado de seus corpos borbotaram enxames de operárias selvagens que se entreferroaram com seus falos de dor e de veneno. E ainda sob os odores típicos das abelhas experimentaram a perda das vísceras e a conseqüente potencialidade de suas mortes. Toda paixão requer um suicídio ou um crime. Clara, enfim, levou-a aos tons pastéis daquele retardado crepúsculo e afundaram e desapareceram em meio a folhas mortas e frutas secas.


Passista

pra desenhar um coração

se o calor de dentro

insiste em ir beijar lá fora o frio

o vidro de transparente

fica macio

Cabelos pretos

Pentagrama

p/ Dayana


Orquestro a partir da pauta posta em suas costas nuas

Frisos de luz,

quase tecido,

tão decididos a nos velar

Da janela aberta o fim da tarde

Perto da noite as fitas das horas a nos orlar o amor

Com os meus lábios corpogravo notas

No compasso das tuas costas

Muitos mi’s “— minha” em semi-breve

e a melodia se compõe na cadência leve das carícias

sobre as foto oblíquas linhas que se medem

Do seu ombro até seu osso-éden

Tanto música como desenho

Tanto pauta quanto instrumento

No teu corpo toco piano

Nas tuas coxas as teclas brancas

Os semi-tons nos teus cabelos

Tateio pela textura-tesura do corpo teu

Pelo homogêneo macio intenso dos teus seios

Pelo crespo das ornamentadas rendas que eu lhe dei

Tateio pela tessitura-tesura do seu corpo

Do grave amor dos teus pés em pêlo

À paixão aguda dos teus lábios tesos

E o crepúsculo que é de todos

E a todos anuncia, sisudo e sereno, o fim da faina

Em nosso quarto vem com o labor de um artesão

Lhe pinta no dorso um pentagrama

E acaba que a canção sai em carvão-aquarela-crayon

A costureira

Uma manhã

p/ Dayana


A luz que entra pela janela

É amarela e tem a textura de quando se imagina

A minha perna descansa no seu sexo

E os meus lábios muito bem acordados imitam o que está quieto

Tenho os dedos intercalados nos teus cabelos

Os pêlos do peito ao alcance de um assopro seu

Temos os olhos maduros e doces

E cada pé namorando os outros três

Uma manhã prepotente

Que não faz de um nada para ser tão importante

E o é

Uma manhã sem cantos de passarinho

Sem sino de igreja

Nem riso de criança...

Uma manhã sem manha

Sem malícia

Nem humildade

Uma manhã sem cor-de-rosa

Nem cor de mel

Sem rima

Sem rimel

Sem tons pastéis

O dia acordou dono de si

Não devendo nada a ninguém

Tranqüilo e forte

Belo e eterno

Como o nosso amor


Minissaia